Samba com o Pé na Cozinha

Quem abriu o coração com a gente desta vez foi a “Diva da porra toda” Geórgia Gomes. Passista de linhagem nobre, filha de sambista, sobrinha de Noca da Portela, hoje Geórgia vê o carnaval mais do camarote para ter tempo de investir o tempo na gastronomia, como empresária com o G & G Gourmet. Às vezes “ Direitinha”, a Diva solta o verbo pedindo que o povo do samba esteja unido para defender a sua cultura, o seu carnaval, que em 2018 perdeu os ensaios técnicos e deixou muita gente sem a possibilidade de garantir a cesta básica com as vendas que os desfiles populares sempre possibilitaram.

1- RS Carnaval chegando! Quais seus planos? Vai sair onde?

Geórgia – Devido a minha entrada na gastronomia, com o GG Gourmet, tive que optar e me dedicar mais aos projetos culinários. Então, este ano, decidi ficar um pouco fora. Estou ministrando aulas particulares de samba para uma menina que vai ser destaque na União da Ilha. Esse é o meu principal trabalho para o carnaval de 2018. Cuidar dessas pessoas que vem em uma posição importante, de destaque dentro das escolas.

2- RS O que a inspirou a ser uma das principais passistas do carnaval carioca? Já sei que a linhagem é nobre. Mas fale um pouco dessa influência na sua relação com o samba.

Geórgia – Eu venho de uma família que tem uma ligação muito forte, muito próxima ao samba. Meu tio é o Noca da Portela. Meu pai, Jorge Telé, também é compositor. Inclusive, a primeira vez que desfilei foi por intermédio do meu pai. Eu tinha seis anos e meu pai tinha ganho o samba no Canários das Laranjeiras. Como não tinha com quem me deixar, pois toda comunidade ia desfilar no Canarinho, porque ele tinha ganho o samba, um amigo da família confeccionou um biquine para mim. Eu desfilei com seis anos e não parei mais, pois para gente sempre foi muito normal esta ligação com o samba, ver meu tio, meu pai criando samba, a gente montando torcida para as disputas de sambas. Além disso, eu brincava de boneca, mas também de ser destaque, de ser rainha. Para mim era super-normal. E assim a coisa fluiu, pois era a coisa mais normal do mundo.

3- RS E o apelido Diva? Como surgiu? Direitinha?

Geórgia – O apelido Diva surgiu por causa dos meus amigos gays. Eu tenho uma ligação muito grande com o público homossexual, eu levanto bandeiras mesmo, respeito, tenho um grande amor por eles, estou sempre brigando por eles, não entendo como uma pessoa pode julgar alguém por querer ser feliz. E também pelo meu jeito espontâneo, eles criaram essa alcunha de Diva. Primeiro , era “Diva da porra toda” – de viado, lésbica, hetero, sapatão, samba -, mas uma vez, eu cheguei e disse que era “direitinha”, todo termo que eu usava, colocava a palavra direitinha. Com isso , ficou a “Diva Direitinha”. E é uma forma de receber o carinho dos meus fãs, amigos.

4- RS como é essa relação com o público LGBT ?

Georgia – É a melhor possível. Muito me emociona. Eu vejo pessoas levantarem muitas bandeiras, para todos os tipos de questão, é uma moda ser militante. Você ser militante no sofá, na rede social, porque é bonito é uma coisa, agora você realmente abraçar uma causa, realmente respeitar, se colocar no lugar do outro é diferente. Eu tenho uma relação de amor mútuo. Alguns me chamam de madrinha. Alguns choram. É uma relação de muito carinho, pois eles sentem a verdade na minha relação com eles. Eu levanto bandeira, eu brigo por eles numa relação de amor extremo. Só quero que eles sejam felizes e a gente briga por isso. Não é só para ganhar curtida. Eu sou muito grata a eles por todo o respeito que eles têm por mim.

5- RS E como é a relação com outras passistas? Rola vaidade, ciúme, disputa de Ego?

Geórgia – Se existe uma guerra de vaidade, eu não sei. Mas eu sou bem tranquila. Eu torço pelo crescimento, até porque , eu venho de uma época diferente de ser passista, com uma visão diferente. Quando eu comecei, nós pegávamos o biquíni que tínhamos para desfilar. A gente desfilava realmente por amor. Não tinha essa vaidade. Hoje é uma questão de ego falar que é passista. Cada um leva da forma que quer. Eu acredito que tenha que ser com amor, pois é uma posição em que você enfrenta muito desrespeito, nem sempre é valorizada, mas é muito cobrada. A ala de passista, assim como a bateria, é um local que pulsa forte dentro da escola. As pessoas vão para ver a ala de passistas, pois é uma coisa bonita dentro da escola, mas em muitas dessas agremiações as passistas não têm esse valor. É uma coisa complicada. O passista tem que se unir em prol do seu próprio trabalho, para que sua arte seja reconhecida.

6- RS Neste carnaval, o que você pode falar das rainhas de bateria? O nível está alto ou já foi melhor?

Geórgia – Esse é um assunto sempre complicado.Para gente que é o chão de uma escola, é raiz, que tem o samba no pé , que entende do assunto, causa um desconforto – não é ciúme, nem nada – , pois para a passista, a rainha é o posto máximo. A gente sabe que a escola precisa de grana, essas coisas. Eu me sinto absurdamente feliz, representada, quando vejo que a Portela tem uma Bianca Monteiro, a Mangueira tem uma Evelyn Bastos, a Beija-Flor tem uma Raíssa, me sinto realizada. Eu sou apaixonada pela Viviane Araújo, apesar de não ter a nossa raiz, como essas meninas todos tem, nós temos, ela é uma rainha, ela reina. Mas a gente sempre quer ver as nossas no posto de rainha, com samba no pé. Mas a gente respeita e acaba criando um vínculo com algumas delas, que se envolvem com a comunidade. No entanto, toda passista quer ser rainha. A bateria é o melhor lugar da escola.

7- RS Qual o seu recado para os sambistas?

Geórgia – Esse ano, devido à correria como empreendedora, eu não me dei conta. Mas quando eu parei, vi que não ia ter ensaio técnico. Eu nunca pensei que ia presenciar algo assim. Uma coisa muito triste. Muito complicada. Meu recado para o povo do samba é o seguinte: vamos parar de militar no sofá, contra os nossos companheiros, as nossas escolas co-irmãs, parar de militar com a vida dos outros. Vamos militar com o nosso samba. A gente é um povo tão forte, tão forte que a gente, sem sair do nosso país, consegue levar nossa arte para o outro lado do mundo, consegue ir à lua como foram Jorge Aragão e Beth Carvalho, através da música. A gente tem que parar um pouco e entender o nosso valor. Cobrar o nosso respeito e não ser visto como pessoas irresponsáveis, que só quer saber da bagunça. Quantas famílias, neste ano, deixaram de ter renda, perderam seu ganha-pão porque não teve o ensaio técnico, escolas que não receberam uma grana que é direito, já que o carnaval gera muito dinheiro, traz gente de fora, e tem toda uma cadeia produtiva, como o camelô que vende água, vendem camisas, comida e não essas militâncias loucas, lúdicas. A casa do Jongo da Serrinha está fechada. O pessoal do samba tem que militar com o samba. Acho que tem que ter uma conscientização, uma visão diferente, pensar fora da caixa e ver que a nossa cultura está sendo mutilada. Não foi o presidente da escola que perdeu, foi todo mundo que depende dessa indústria que é o nosso carnaval. E o ensaio técnico é único momento onde o povo pode ver a sua escola. A mesma escola que ele não tem condições de ver desfilar.