Cais do Valongo – Patrimônio da Humnidade

Reprodução de texto do jornal O Globo

OPINIÃO

Patrimônio do Valongo não pode ser abandonado

Espera-se que a prefeitura se planeje para que o sítio arqueológico e o acervo encontrado na região da “Pequena África” sejam muito bem preservados

POR EDITORIAL

09/07/17 – 00h00 | Atualizado: 09/07/17 – 00h00

O acaso levou à descoberta de um dos maiores tesouros arqueológicos do Rio. Em 2011, operários que trabalhavam nas obras do Porto Maravilha — uma das muitas que preparavam a cidade para a Olimpíada — escavavam o subsolo da Zona Portuária quando se depararam com as ruínas do Cais do Valongo. Ressurgia ali parte importante da história do Rio e do próprio Brasil que, durante séculos, permaneceu soterrada por toneladas de aterro. Pesquisadores estimam que, entre 1811 e 1843, passaram pelo Valongo — maior porto escravagista das Américas — mais de 2,4 milhões de escravos, vindos principalmente do Congo e de Angola.

A relíquia estava muito bem escondida. Sobre o Valongo, havia sido construído, em 1843, o Cais da Imperatriz, para receber a imperatriz Teresa Cristina Maria de Bourbon, que desembarcaria no Rio para se casar com Dom Pedro II. No início do século XX, este também seria aterrado, para a construção do Porto do Rio.

Tão importante quanto o resgate das pedras irregulares do Cais do Valongo foi a descoberta de pertences dos escravos, localizados graças a um minucioso trabalho de arqueologia de uma equipe do Museu Nacional liderada pela arqueóloga Tania Andrade Lima. Uma varredura em cinco quarteirões da Zona Portuária, entre janeiro de 2011 e junho de 2012, rendeu um outro tesouro. Foram achados milhares de artefatos, como miçangas, amuletos de osso, colares, pulseiras de piaçava e pedras deixados pelos escravos e conservados durante anos pelas camadas de terra.

Agora, esse conjunto histórico está prestes a obter reconhecimento internacional. Representantes da Unesco reunidos em Cracóvia, na Polônia, podem conceder ao sítio arqueológico do Valongo o título de Patrimônio da Humanidade.

Mas, independentemente disso, o acervo do Valongo, a que o antropólogo Milton Guran se refere como “o mais contundente lugar de memória da chamada Diáspora Africana fora de seu continente de origem”, precisa ser valorizado pela prefeitura e pelos órgãos de patrimônio.

Reportagem do GLOBO mostrou que os mais de 500 mil itens achados nas escavações estão armazenados num galpão da Gamboa em condições frágeis de segurança. Em fins de junho, guardas municipais que faziam a vigilância das instalações foram expulsos do local por traficantes.

Também não prosperou o Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) assinado no fim do ano passado, entre prefeitura, Iphan e Ministério Público Federal, que obriga o município a conservar, gerir e promover a divulgação do material por meio da criação do Laboratório Aberto de Arqueologia Urbana. Alega-se falta de recursos.

Uma vez redescoberto, o acaso não tem mais lugar no Valongo. Ao contrário. Espera-se que a prefeitura se planeje para que o sítio arqueológico e o rico acervo encontrado na região da “Pequena África” sejam preservados e, claro, usufruídos pelo público. Afinal, a cidade não pode se esquecer de zelar pela sua memória.

https://m.oglobo.globo.com/opiniao/patrimonio-do-valongo-nao-pode-ser-abandonado-21562581#