Entrevista com Fabíola Machado

O nosso papo aqui no Blog do Samba é com uma cantora e compositora da nova geração. Mãe, mulher e lutadora, Fabíola Machado vem se destacando no cenário do samba carioca, com projetos como o Moça Prosa, roda composta por mulheres, que nasceu na Pedra do Sal e hoje passeia por pontos importantes da Cidade Maravilhosa, como a quadra da Portela. Outro trabalho que mostra a raiz dessa sambista de primeira é Alayó, nascido no terreiro de Mãe Beata, que tem como foco os afro-sambas e vertentes. O mais recente projeto de Fabíola é o “Piseiros de Clementina”, que resulta de um trabalho de um ano de pesquisa sobre a Rainha do Quelé, mergulhando em toda a sua ancestralidade. A direção traz Leandro Pereira e outro representante da nova geração do samba, o gaúcho Daniel Delavusca, cavaquinista, compositor e cantor dos melhores no cenário, e companheiro desta mulher chamada Fabíola Machado.

RS – Por que Clementina, em um cenário com tantas grandes damas no samba?

Fabíola – A vontade de falar dela veio do fato de pouquíssimas músicas gravadas por ela, não escuto as pessoas cantando Clementina nas rodas. Achei uma obrigação minha buscar mais sobre essa mulher e a história e trajetória dela. Faz um ano que comecei pesquisar e amar .

RS – Como foi a pesquisa?

Fabíola – Comecei pela história de vida dela, o caminho percorrido de Valença até a capital, buscando muita coisa na internet, até achar a biografia que foi lançada 2013 e relançada esse ano. Ouvindo os álbuns para selecionar o repertório.

RS – Seleção de repertório nem sempre é fácil, como foi para chegar na seleção final destas 18 músicas?

Fabíola – Ainda é difícil (rs). Tenho vontade de inserir outras músicas sempre. Tentei misturas jongo, curimãs, partido alto, samba canção, o repertório infantil que é maravilhoso. As músicas têm gravações originais de 1965 a 1982. Precisamos cantar mais Clementina. No show, canto as músicas e falo um pouco da história, curiosidades dela e a relação com o compositor, como com Herminio Belo de Carvalho, que a descobriu e mostrou ao mundo seu canto. O meu xodó é “Olhos de Azeviche”, do compositor Jaguarão, gravada em 1979.

RS –  Conta um pouco sobre o Alayó!

Fabíola – O Alayó nasceu dentro do Terreiro de Mãe Beata de Yemonja, minha mãe de santo. Sou Ekeji do Omijuaro, e foi um presente oferecido à Mãe, em um sarau em comemoração aos 30 anos da casa, pelos filhos. Noan Moreira, Isadora Scheer Casari, Francisco Souza, com a participação de Daniel Delavusca, Serrinha Raiz e Crispim e a dança com Aninha Catão . O Alayó contempla afro-sambas autorais, de amigos compositores e releituras de canções nesse seguimento já consagradas.
O Nome foi dado por Mãe Beata, significa “aquele que leva alegria”. Minha mãe foi a maior motivadora nos últimos anos. Inclusive para mergulhar na vida de Clementina.

RS – E o Moça Prosa ?

Fabíola – O Moça é a felicidade de se fazer o que se ama e ter a possibilidade de ver outras mulheres motivadas e com coragem de também ocupar o espaço da roda, compondo, tocando, cantando, produzindo. Lá no Moça fazemos tudo isso. Uma convivência de aprendizado. Acredito demais em nós juntas, somos um coletivo de sonhos, não é fácil, mas estamos aprendendo muito umas com as outras.

RS – E essa parceria musical e de vida com o Delavusca?

Fabíola – Maravilhosaaaa !!! Amo esse homem (rs). Ele é um motivador, paciente, pois sou um furacão. Me ensina muito e nos permitimos fazer o que gostamos juntos. Aprendizado de vida e de trabalho.

RS – Como você vê o samba hoje? A nova geração, a qual você pertence? E as dificuldades enfrentadas pelos artistas?

Fabíola – O samba é uma das maiores manifestações culturais do mundo. Só aqui vemos na beira da roda ricos, pobres, o morador de rua e o médico no mesmo ambiente. É realmente democrático. É nossa cultura, força, minha cura e libertação. Pertenço à geração de mulheres com coragem de fazer o que quer (rs). A cultura hoje, no geral, vem passando por muitas dificuldades. A arte é necessária para o mundo. Ela cura males, cria possibilidades, oportunidades e acesso. E, cada vez mais, estamos vendo a falta de recurso e investimento público. Estamos na luta, nos reinventando, principalmente o samba, tão discriminado ainda hoje.

RS – E como você vê o espaço da mulher no samba?

Fabíola – Estamos caminhando, buscando diálogo e os nossos espaços, não somente como o enfeite da roda, mas com os espaços de fala para abordar assuntos como o machismo, respeito à mulher, a composição, produção. A consciência da mulher de seus espaços. Estamos buscando nosso caminho.