Foram me chamar, eu estou aqui, o que é que há?

Por: Angélica Ferrarez de Almeida *
I
vone Lara da Costa nasceu das águas de Oxum e de família simples no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro. Seu pai era dono de um violão sete cordas e sua mãe, cantora soprano em ranchos carnavalescos como o Ameno Resedá e o Flor do Abacate. Os mesmos ranchos que Tia Ciata, Tia Carmem do Xibuca, Tia Amélia do Aragão e outras tias do samba frequentavam e ajudaram a fundar.
Tia Emerentina, mãe da pequena Ivone, bem como as outras tias do samba, fazem parte do conjunto de mulheres que foram responsáveis por terem criado espaço para a primeira geração de sambistas se desenvolver. Herdou dos pais a combinação genética, pois da mãe puxou a voz e do pai, o gosto pelos instrumentos de corda. Mas foi com os tios que ela tomou gosto pelo samba e aprendeu a tocar cavaquinho, já que os pais saíram cedo de cena. Perdeu o pai aos 3 anos de idade e a mãe aos 12.
O amor a levou para o Morro da Serrinha, em Madureira. O amor pelo samba e por Oscar Costa, filho de Alfredo Costa, este último, presidente da escola de samba Prazer da Serrinha em 1946. Ela passou apenas um ano nesta escola que logo em seguida veio se tornar Império Serrano, para os íntimos, O Menino de 47.


“Menino de 47, de ti ninguém esquece, Serrinha, Congonha, Tamarineira, nasceu o Império Serrano, o reizinho de Madureira”, já cantavam Campolino e Molequinho anos depois da fundação da escola que foi responsável por um dos maiores carnavais da história. A esta altura, Ivone, que pelo respeito e reconhecimento já tinha ganhado o Dona no nome, participava da ala dos compositores e sua passagem lá foi marcante.
Ela que era compositora compôs o samba “Nasci para sofrer” e “Não me perguntes”, mas foi em 1965, com o samba histórico “Os cincos bailes da história do Rio” que veio a consagração e o pioneirismo, pois poucas eram as mulheres que tinham espaço na ala dos compositores.
“Carnaval, doce ilusão
Dê-me um pouco de magia, de perfume e fantasia e também de sedução
Quero sentir nas asas do infinito, minha imaginação
Eu e meu amigo orfeu, sedentos de orgia e desvario
Cantaremos em sonho os cinco bailes na história do Rio…”

E foi assim, com o poder feminino refletindo as composições históricas do Império Serrano que este ganhou alguns de seus maiores títulos na história do carnaval. Ao todo foram nove campeonatos dentre as campeãs, além daquele que garantiu a volta da escola ao grupo especial no ano de 2017, após passar anos no grupo de acesso, pois como diz o samba-enredo de Arlindo Cruz: “… imperiano de fé, não cansa, confia na lança, do santo guerreiro…”.
Sua ala de compositores já foi uma das mais potentes das agremiações de carnaval carioca, contando com os saudosos Mano Décio, Aniceto do Império, que foi tema de documentário do cineasta Zózimo Bulbul, Molequinho, Silas de Oliveira, Beto sem Braço, e os que estão entre nós para contar histórias: o forte Arlindo Cruz, o irreverente Aluísio Machado e a única mulher, Dona Ivone, por isto também considerada a dama do samba.

O samba, apesar de nascer do ventre materno, tem, em geral, seus espaços de poder mediado pelos homens. Uma mulher ter espaço numa ala predominantemente masculina, como a ala dos compositores em uma escola de samba naquela época em que Dona Ivone Lara estava compondo, é de uma subversão tamanha. Um dos maiores legados que esta mulher pode dar ao mundo do samba está não só nas suas composições, na sua voz, mas em sua postura ao subverter a ordem estabelecida, ora doce como em “Sonho Meu”, ora sedutora como seu “Sorriso Negro”, às vezes cantando só para distrair, outras politicamente afirmando que “O samba não pode parar”.
Hoje, O Menino de 47 está feliz sabendo que uma de suas pioneiras está completando 97 anos. Não só Madureira, mas a comunidade do samba está agradecida pela herança imaterial que Dona Ivone está deixando para a história social do samba e das mulheres.

* Angélica Ferrarez, mulher, negra, mãe da Ynaê, é também professora e doutoranda pela UERJ e estuda a História Social das Mulheres no Samba e na cidade do Rio de Janeiro. Idealizadora e pesquisadora do projeto Rodadas Negras.
https://medium.com/@rodadasnegras/foram-me-chamar-eu-estou-aqui-o-que-%C3%A9-que-h%C3%A1-170b21feb7d5