Papo com Almir Guineto

Quem não é do Salgueiro, ou melhor, quem não frequentou o morro ou a Escola da Zona Norte na década de 1970, nem frequentou o Cacique de Ramos no início dos anos 1980 não pode imaginar o que era Almir Guineto comandando a roda, com um samba altamente partideiro, ao som do seu cavaquinho e chamando a galera para versar. Pegando o mote emprestado dos versos do samba de Arlindo Cruz e Sombrinha, quero falar do prazer que foi poder bater um papo com o maior nome do samba no Brasil. Ídolo de Zeca Pagodinho e de muitos outros sambistas. Eu, infelizmente, só posso tentar imaginar o que era a reunião de Almir Guineto e os amigos nas rodas de quarta no Cacique, ponto de encontro de grandes nomes do samba que conhecemos hoje, tendo que cantar até a alvorada para facilitar a chegada em casa.

Pegando emprestado o release, apresento a vocês esse carioca nascido no dia 12 de julho de 1946, no Morro do Salgueiro, capital carioca, com o nome de Almir de Souza Serra, popularizado pela criativa alcunha de Almir Guineto. Criado em meio a músicos de primeira linha como Geraldo Babão, Antenor Gargalhada e muitos outros, Guineto cresceu influenciado pela veia sambista de seu pai, Iraci de Souza Serra, respeitado violonista e integrante do grupo Fina Flor do Samba, e de sua mãe, Nair de Souza Serra – a “Dona Fia”, costureira do Salgueiro e figura ancestral do samba.

A.N. – Como começou a sua história com o samba, lá no Morro do Salgueiro?

Morávamos na Rua João XV, num barraco sem número. Morávamos a 100m da escola, da quadra principal do Salgueiro. E, vivendo perto do samba, tinha que sair sambista. Ainda mais que, em casa, tinha meu pai, que era professor de violão, o Chiquinho, que era do Originais do Samba, Mestre Louro, Georgete, que era passista, mamãe cantava na tina e saiam esses sambas já em casa. Aí o Mussum me levou para São Paulo, para tocar com o Originais do Samba. Fiquei um bom tempo em São Paulo, um lugar que excita você a fazer música. Antes de cantar, gravei muitas músicas, fui músico, toquei em estúdio.

A.N. – Nesta época, você tocava cavaquinho, né?

É! Nessa época, eu toquei com muita gente durante muito tempo, artistas como Beth Carvalho, Alcione, Martinho da Vila, etc. Depois, fui para o Fundo de Quintal.
Na verdade, não existia Fundo de Quintal. Nós nos reuníamos no Cacique de Ramos, às quartas-feiras para fazer um samba sem compromisso, sem interesse, só por diversão. Aí que nasceu o Fundo de Quintal. Me chamaram para fazer um teste, em uma época que nós nem pensávamos nisso. Nós só cantávamos sambas inéditos, pois todos artistas do mundo do samba e jogadores de futebol iam ali. Então, me chamaram, em 1980, para fazer o teste e aí que pintou o Fundo de Quintal. Gravamos um disco. Depois disso, eu passei a cantar sozinho e estou aí até hoje.

A.N. – Como é a relação com os parceiros de composição?

Ótima, Sensacional. Beto Sem Braço, Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz, Sereno, Bira Presidente, Ubiranir, Jorge Aragão, aquele time todo. Nós criamos o Fundo de Quintal, era Eu Sombrinha, falecido Enelcir.

A.N. – E o Denir de Lima?

Denir também. Apesar de não ser do grupo, ele participava muito, gostava de versar e mandava muito bem.

A.N. – Por falar em versar, nos encontramos no Cacique de Ramos, onde vimos pela última vez o Renatinho Partideiro, que logo depois veio a falecer. Como você vê o partido-alto hoje?

O Samba de Partido-Alto, o samba de improviso, da minha época para agora caiu muito. Antes você tinha o tema e improvisava em cima do tema. Hoje em dia não tem mais isso. Virou um folclore, o pessoal gosta de rir e ganha quem canta por último. Tem a escada que prepara para o outro cantar. Hoje em dia, eu não vejo mais partido-alto como era o antigo.

A.N – No começo da carreira você foi para São Paulo e, agora, volta ao Rio depois de mais uma longa temporada por lá. O Rio é ruim para o sambista ganhar dinheiro com a música?

É! Exatamente! O Rio É bom para o turista gastar. Porque para fazer show é difícil. As instituições falam que você é daqui, “cria da casa” e não pagam. Já em São Paulo não. Lá você trabalha muito, muito mesmo e ganha dinheiro. Pagam de acordo com o valor do artista. Cantei naquele interior todo e , em cinco anos, você não consegue ir a todos os lugares que têm show. Em São Paulo tem as feiras agropecuárias, “cantar para boi” – risos- , tem espaço. Aqui não, tirando a época de carnaval, é complicado.

A.N.- Nas suas músicas, temos algumas onde você fala sobre o caxambú, o jongo. Você vivia isso na época de infância?

Na minha época de menino, tinha o jongo. Eu estou com 66 anos hoje. Na época que minha falecida Tia Estephânia fazia as festas de São João, as festas juninas, ela sempre botava o tambor para tocar no terreiro. E tem toda aquela coisa da oração, todo um preceito. Mas a gente via e brincava ali vendo os mais velhos.

A.N. – E a sua relação com o Salgueiro?

Eu fui ritmista do Salgueiro, fui presidente da bateria, saia em ala, essas coisas. Mas hoje já não faço mais parte. A carreira artística não deixa. Hoje, eu só sei fazer isso: cantar. A gente tem que aproveitar para poder viajar e ganhar dinheiro.

A.N. – E como era o sambista na sua época? A malandragem era diferente?

A malandragem era muito diferente.

A.N. – Como foram as dificuldades no início da carreira?

Naquela época ninguém tinha automóvel, ninguém tinha carro próprio, era ônibus, a pé ou de carona mesmo. Por exemplo, no Cacique de Ramos era difícil passar carro, automóvel, principalmente de madrugada. Era muito difícil. Então, ou voltava de carona ou ficava por lá e só chegava no dia seguinte em casa. Ficávamos bebendo até de madrugada, tocando embaixo da tamarineira. Mas era um tempo bom, que deixou muitas saudades.

A.N.- Quando você pensou: vou ser cantor. Vou partir para minha carreira solo?

Não fui eu quem definiu. Quem definiu foi o “Gringo”, o Gabriel. Ele era o dono de tudo. Aì ele decidiu: você vai cantar sozinho. Não sei o que ele viu (risos).

A.N. – Como era a relação com Zeca. Ele pegou muita cerveja para vocês?

É uma grande amizade. Ele é parceiro de música, cantava bem, versava bem. Curtimos muito a madrugada. Tempo bom que não volta mais.

A.N. – E o primeiro sucesso?

Fiz “Coisinha do Pai” antes de ser cantor, antes de tudo. No começo de tudo foi ela. Era cavaquinista. No meio de tudo e de todos, daquela massa. Sempre incentivavam a gente a fazer música. E eu e o Aragão(Jorge) fizemos ela.Essa música foi até para Marte na voz de Bateh Carvalho. É uma música que tenho muito orgulho dela. E não pode faltar nos shows.

A.N. – E a sua relação com o público? Como é o reconhecimento?

AH! É muito gratificante. É muito bom você ver o público interagir com você e cantar tudo o que você canta. Minha músicas são todas antigas. E essas músicas não têm idade, elas perduram, são antológicas. Canções como “Conselho”, “Insensato Destino”, “Coisinha do Pai”, “Jibóia”, entre outras são muito conhecidas. No show é só começar para o povo cantar.

A.N.- O que inspira Almir Guineto? Como é o processo de criação?

Vem naturalmente. Tem muitas formas de fazer. Faz de trás para frente para montar. Pega um parceiro que gosta de trabalhar. Já fiz músicas de todas as maneiras. O poeta escreve e geralmente, eu faço a melodia.

A.N. – Como foi a concepção de “Lama nas Ruas” por exemplo?

Eu e o Zeca estávamos na Serra da Cantareira, em São Paulo, totalmente embriagados(risos), um tempestade “do caramba”. Aí conseguimos fazer essa música. Noite de pifão, com limão e cachaça.

A.N. – Qual a música que você mais gosta de ter feito?

Música é que nem um filho que nasce. É magia. Você pensa que vai brilhar no disco, mas não acontece. Umas vão, outras não. Mas é um filho que nasce. Eu gosto de todas.

A.N. – E a importância do Milton Manhães, no processo de produção quando surgiram vários sambistas no Cacique de Ramos?

Milton Manhães é um grande produtor. Ele e o maestro Ivan Paulo. Eles estão na maioria dos meus discos.

A.N. – Você perdeu um filho. Como foi lidar com essa perda?

Uma perda é sempre uma perda. Eu já estava em São Paulo quando o fato ocorreu. É sempre difícil. A dor é sempre grande.

A.N. – E essa volta para o Rio agora?

Para reencontrar a Regina. Matar as saudades da minha mulher. Matar saudades do Rio.

A.N. – E o seu último CD ? Cartão de Visitas?

Eu e o Adalto Magalha sentamos para fazer as composições, Fred Camacho, Arlindo Cruz, Gilson Bernini, Dudu Nobre. Uma galera. E chamei o Ivan Paulo para fazer os arranjos. Nós fazíamos duas músicas por dia.

A.N. – Quais são os planos para o próximo semestre?

Vou fazer um DVD agora. Vão participar Diogo Nogueira, Xandy de Pilares, Almirzinho, Dorina, Luciana Carvalho, Fundo de Quintal, Elba Ramalho, Alcione. São músicas antigas, sucessos, que estou fazendo regravações. Além disso, vou ser também “Memória do Samba”. O primeiro foi o Monarco, agora sou eu.

A.N. – O que o samba trouxe para você?

Muita Alegria. Até hoje. É uma felicidade conviver com o samba. No samba não existe professor. É dom. A galera mais nova tem que cair para dentro e fazer com carinho. Sempre com humildade, sem máscara.