Noca da Portela lança CD com Sambas de Terreiro do Tuiuti

“Memória”! Não à toa, o samba de 1962, abre os trabalhos no novo CD do mestre Noca da Portela, trazendo para nosso deleite um registro importante da história do samba que estava guardado em seu HD natural, que traz à tona a raiz de tudo que se canta e conta hoje nas rodas do país. Antes do sobrenome da azul e branco de Madureira, “Seu Oswaldo”, ou Noca, como preferir, fez estágio no Catete, em Botafogo, até aportar e ajudar a fundar a Paraíso do Tuíuti, na zona norte carioca. Naquele tempo, não tinha quadra,por isso, o samba de meio de ano das escolas era de terreiro. Samba de terreiro era no chão de barro e a poeira levantava mesmo, o pé batia, a palma comia solta com as pastoras cantando os sambas que hoje habitam as rodas. Os sambistas ficavam com os cabelos esbranquiçados com a poeira que cismava em tingir as madeixas, contos de um griô de 86 anos, com uma memória privilegiada, que permitiu relembrar obras antológicas de mais de cinco décadas atrás.     

Sambas de compositores semianalfabetos, que vinham da alma, um dom. Se nas escolas formais não tinham conseguido seguir adiante, eram mestres no samba, na arte de escrever e fazer melodia. Falavam da linguagem do morro, tal qual um “Cabrito Sabido”, que dá nome a segunda obra, que tem como autor Fizico, datando 66,  este, tido como a caneta mais poética do Tuiuti, o que fica comprovado na música seguinte, do ano anterior, “Ela Está Presente” . Ainda de 1965, o poeta do morro teve lembrada “Escurinha”, um samba onde chora a saudade da amada. Em 1958, Noca, em parceria com Walter Reuna escreveu uma crônica, em forma de música, sobre um dos episódios mais estarrecedores da história do Rio de Janeiro: “A Fera da Penha”. Como relata a música, “uma mulher desalmada…depois de sequestrar uma criança… praticou um ato de terrorismo, sem dó nem piedade, ateou fogo na Taninha, com requinte de crueldade….”. Aliás, Reuna merece destaque por uma estória curiosa. Reza a lenda que o sambista fora deixado em uma caixa de sapato e criado pela comunidade, tendo como pais o Morro do Tuíuti. Já na faixa seguinte, Noca exalta a beleza do Rio em “Cidade Maravilha”, parceria com Natanael, ou simplesmente Natal do Tuiuti, 15 anos mais velho, que estaria com 101 anos hoje, padrinho da primogênita do baluarte portelense, que foi o responsável pela melodia na poesia do compadre, que aparece em mais cinco faixas, três com o próprio Noca (“Vai Você Aí”, “O Samba Chegou”, “Amor Verdadeiro”) , uma solo(“Alto da Serra”)  e uma com Fizico(“Olha a Hora”). Poliba, ou Jorge Sacramento, é o maior ganhador de sambas de enredo da Paraíso do Tuiuti. Ele aparece três vezes em parcerias com Noca da Portela – “Sandália Dourada”, “O outro Lado da Vida” e “Você Vacilou” -, sendo que, na última, a dupla vira trio e recebe a ajuda de Silvinho do Pandeiro. Aliás, uma exceção à regra, já que as músicas do CD, têm sempre um ou dois autores, diferente de hoje em dia, onde o samba é fabricado nos escritórios com quase uma dezena ou mais de donos. Por falar nisso, “Dona do Meu Lar” tem autoria de Vicente Arídio, poesia sobre um amor perdido, tema preferido dos sambistas de ontem e de hoje, feita em 1968. Em “Maldade”, Noca relembra a parceria com Colombo. Já Eurídes aparece na “Homenagem ao Dr Roquete Pinto”, de 1954, que fecha essa obra-prima do baluarte da Portela.

A direção,  produção musical e arranjos do CD estão impecáveis, um verdadeiro primor  e têm como responsável José Roberto Leão, que também aparece nos violões 6 e 7 cordas, cavaquinho, bandolim e banjo. E o time de craques conta ainda com Dirceu Leite, o mago dos sopros, o bamba Darcy Maravilha na percussão geral e fazendo participação na música “Você Vacilou”, Henrique Garcia no cavaco com afinação de bandolim e Joe Luiz na cuíca. No coro, o trio Karina Duque Estrada, Helô Mouzer e Beto Fernandes. Eliane Faria, primogênita de Paulinho da Viola – responsável pela ida de Noca para a Portela – , participa em “Maldade”.   E deixando as sementes que já florescem e vão dar continuidade ao gênero que representa o Brasil em todo mundo, os netos Diogão Pereira ( em “Homenagem ao Dr. Roquete Pinto” e “Tuiuti Querido“) e Danielle Pereira (em “Tuiuti Querido”) fazem parte de mais este lindo trabalho de um dos principais nomes da música popular brasileira, já imortalizado por artistas consagrados e que segue, aos 86 anos, incansável na luta para manter tremulando a bandeira do verdadeiro samba do nosso país. Salve Noca, do Tuiuti, Do Catete, de Botafogo, da Portela, do Brasil.

Alexandre Nadai